Ataques a refinarias sauditas não afetaram Brasil, avaliam ANP e Petrobras

Os ataques com drones a instalações de petróleo na Arábia Saudita, em 14 de setembro, fizeram o preço do petróleo disparar, com aumentos que não haviam sido registrados desde a Guerra do Golfo. A crise, porém, não teve efeitos significativos no mercado de combustíveis no Brasil, afirmaram participantes de audiência pública da Comissão de Infraestrutura (CI), nesta terça-feira (29). A audiência com o setor petrolífero foi convocada pelo senador Marcos Rogério (DEM-RO) para discutir a crise internacional e outros assuntos nacionais, como a contenção do derramamento no litoral nordestino.

Os ataques a duas das maiores refinarias de petróleo do país foram reivindicados pelos rebeldes Houthi, do Iêmen, mas os Estados Unidos e a própria Arábia Saudita dizem que o Irã está por trás das investidas, já que o país, além de apoiar o movimento rebelde, não tem boas relações com a Arábia Saudita. Nas palavras do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, o atentado “foi sem precedentes contra as reservas de energia do mundo”. Marcos Rogério explicou que, ao convocar a audiência, a preocupação era como os ataques repercutiriam nas bolsas e no preço dos combustíveis em todo o mundo, inclusive no Brasil.

— Naquele momento o preço do barril tipo Brent, que baliza o valor da gasolina brasileira, já subia muito — lembrou.

De setembro para cá, o mercado mundial de petróleo absorveu os efeitos da crise saudita. O diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Aurélio Amaral, esclareceu que, embora o ataque dos drones num primeiro momento tenha reduzido a produção de petróleo saudita a menos da metade (interrompeu a produção de 5,7 milhões de barris por dia, cerca de 5% da produção global), a Arábia Saudita anunciou que usaria seu estoque e a extração de outros campos para manter os contratos de exportação.

— Duas semanas após o ataque, a estatal Saudi Aramco anunciou que a produção já havia retornado ao nível anterior aos ataques, com 9,7 milhões de barris por dia, para também restabelecer os níveis do estoque usado. Como isso, as cotações, que tinham subido de 11% a 13% , voltaram aos patamares anteriores ao ataque — destacou Amaral.

Ele explicou que, apesar de ser o nono maior produtor de petróleo e gás do mundo e ter atingido a autossuficiência, o Brasil importa petróleo mais leve para ser misturado ao produzido aqui, que é mais pesado. A parcela de petróleo importado representa 11% da demanda nacional.

Cerca de 34% desse petróleo importado pelo Brasil vem da Arábia Saudita, o que faz desse país o maior parceiro comercial brasileiro no Oriente Médio e norte da África. Da Argélia chegam 21% do que é comprado, e dos Estados Unidos, outros 20,5%. Outra importação relevante vinda da Arábia Saudita é de combustíveis de aviões. O Brasil importa 14,4% do combustível que consome. Desse montante, a importação saudita representa apenas 7,7%.

O gerente-executivo da Petrobras, Claudio Linassi Mastella, destacou que, embora a interrupção de 5% represente muito no total de petróleo produzido diariamente no mundo, a retomada da produção foi rápida e não chegou a afetar o mercado brasileiro porque a Petrobras tinha como esperar a retomada da produção saudita.

Linassi explicou que a política de preços no Brasil segue uma linha realista e cautelosa em eventos de alta instabilidade, como o da Arábia Saudita. Eles não produzem uma resposta imediata da Petrobras, ou seja, o aumento do valor do petróleo internacional não é repassado imediatamente ao mercado brasileiro, afirmou:

— Além disso, a Petrobras não pratica preços muito baixos, para não ser um supridor compulsório, e nem muito altos, para que o Brasil não seja invadido pela importação que tomaria espaço do país no mercado internacional. É um equilíbrio vivo e um mercado autorregulado — avaliou Linassi.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) criticou a dependência do Brasil aos preços do mercado internacional. Ele lembrou que o sonho das gerações passadas era a autossuficiência de combustíveis, e, uma vez que isso foi atingido com o pré-sal, o Brasil continua à mercê dos preços dos barris internacionais.

Derramamento de óleo

Outro assunto que permeou toda a audiência foi o derramamento de óleo no litoral do Nordeste brasileiro. Linassi esclareceu que a Petrobras empenhou sua estrutura de prevenção de acidentes para ajudar na limpeza das praias nordestinas.

Segundo ele, 20 unidades operacionais e 500 agentes ambientais estão trabalhando todos os dias para combater os impactos desse acidente, e 350 toneladas de óleo já foram retiradas das praias — são mais de mil toneladas derramadas.

Ele contou que a Petrobras cedeu 10 mil kits de proteção individual (botas, capacetes, luvas, água e refeição) para quem trabalha na limpeza, além de drones, helicópteros e embarcações. E disse que ainda precisam ficar claros a causa e o responsável pelo derramamento de óleo.

Na avaliação de Jean Paul, a Petrobras demorou a protagonizar a resposta ao derramamento quando constatou-se que não era causado pelas estruturas da empresa.

— Desconfio que houve uma certa negligência nos dias iniciais para conter a mancha em alto-mar e impedir que mil toneladas atingissem as praias, os mangues, os arrecifes e corais. A Petrobras se enxerga como partícipe, paradigma, como operadora hegemônica no petróleo brasileiro, como anfitriã e parceira das empresas que estão operando, ou não?

Linassi reiterou que a empresa se sente participante do processo e que deve tirar lições do acidente para melhorar as respostas do Brasil a esse tipo de evento.

O senador Esperidião Amin (PP-SC) defendeu que parte do dinheiro arrecadado com leilões do petróleo seja destinada a combater desastres ambientais, como o vazamento de petróleo visto na costa brasileira. Amin disse que apresentará projeto nesse sentido.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado
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